10 de janeiro de 2013

Quem dera Eduardo... |Os Antiquários - Pablo De Santis|



Tenho uma fixação bem forte por cidades potencialmente deprimidas, como São Paulo, Paris, Londres, Barcelona e Buenos Aires. Os guias turísticos discordariam de mim (talvez só não no caso de Londres), já que Paris parece ser feita de moda&compras o tempo todo, assim como Barcelona é sinônimo de balada e São Paulo de poluição sem muito poema.
Buenos Aires então, só vejo roteiros turistões por aí, cheios de zoológicos, Maradona e bares que cobram seu peso em ouro por uma taça de vinho.
Isso acabou me levando a um interesse especial por Os Antiquários (que encontrei numa resenha da Nina <3), que se passa na Buenos Aires dos anos 50. Me esforcei bastante para ligar a cidade meio morta que Santis descreve com a que eu vi na minha visita em 2006. Minha memória não ajuda, porque lembro apenas de trechos bastantes específicos e estranhos da viagem (como as placas de desaparecidos em Santelmo e o túmulo de Evita na Recoleta, sim, eu sou levemente mórbida).

Foi impossível não comparar com Carlos Ruiz Zafón, já que ambos são escritores hispânicos (apesar de um ser espanhol e outro argentino) e seguirem uma trama bastante "cinquentista" de mistérios, mortes e realismo fantástico. Mas Santis tem seu próprio brilho, e constrói sua própria fábula. E quem dera Eduardo Culeim, você ser um vampiro tão embasado...

Santiago é um jovem levemente bobo que é arrastado pela onda dos fatos até o contato com os antiquários; eu tive muita pena do rapaz, porque metade do livro corre sem o consentimento dele, só numa sucessão de tsunamis de infortúnios.
Os antiquários em si são uma história a parte. Longe do mito comum de vampiros sórdidos e poderosos, temos seres tristes e envelhecidos, apesar da longevidade eterna. E são sempre basicamente colecionadores que tentam se camuflar na paisagem da antiga cidade.
O que achei mais curioso é que a versão de Santis não coloca os sugadores de sangue como predadores: eles tentam conviver e superar a tentação da chamada "sede primordial" com um estranho elixir, e são tão reclusos que acabam virando, vejam só, presas!
"Às vezes não é suficiente esconder-se atrás de livros ou de velhas estatuas empoeiradas ou tapetes esgarçados. É preciso defender-se. Pouco importa se nos acreditamos livres e fora de perigo: a cidade em que vivemos está sempre sitiada. Acreditamos estar em Montevidéu, Turim, Praga, Buenos Aires: mas vivemos em Tróia."

Amei a colocação acerca dos "camponeses com tochas", feita pelo ultra-enigmático Numismático:
"(...) Falo dos homens comuns, dos homens das massas. Não viu aqueles filmes de Frankstein, do lobisomem? Não viu Karloff, Lugosi, Basil Rathbone? Chega sempre uma hora em que os camponeses com tochas se exaltam e cercam o castelo."

Esses camponeses não cercam apenas os sobrenaturais, mas também os excepcionais e reclusos. E os pobres antiquários são uma soma de tudo isso.
Ao longo do livro me pareceu que Santiago deixa de tentar controlar o mar revolto que o cerca e aceita uma existência sem começo nem fim, em que apenas a necessidade de se manter oculto é uma certeza, e mesmo disso ele passa a duvidar.
E flutuando nesse mar morto ele finalmente acolhe o que realmente é: um antiquário.

Os Antiquários (Los anticuarios).

Pablo de Santis; tradução de Ivone C. Benedetti.

Editora Alfaguara/Objetiva; 2012.












Créditos da imagem do post: Alsace-Lorraine.

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