8 de novembro de 2011

Corredor da Alma - #5

  Uma porta do outro lado do corredor tinha uma réstia de luz saindo por baixo. Dessa vez Edgar abriu, com o pensamento de alguém ter ficado preso ali com eles, porém outra surpresa o esperava.

  Reconhecia nitidamente o lugar e a data. Era o aniversário de cinco anos de sua irmã mais nova, Sarah. Sua mãe em um raro momento, sorria; e rodeava a filha radiante e a torta simples, porém bonita, em cima da mesa.

  O pequeno Edgar estava ao lado da irmã, falando algo aparentemente engraçado, pois todos os convidados - uns poucos vizinhos e amigos - riam.

 Edgar se perdeu nas sensações daquele momento, um dos raros felizes de sua infância; em meio a tantos acontecimentos, abrir uma porta e encontrar um pedaço de casa era reconfortante.

  Então um homem entrou pela porta que dava para a rua, quebrando o encanto. Edgar sabia o que acontecia, e esperava que o momento anterior durasse para sempre, e a festa nunca morresse. O homem estava claramente alterado, e já entrou gritando. Os convidados escapuliram de suas cadeiras, o sorriso da mulher se desfez e as duas crianças se encolheram diante da visão do pai bêbado.

  Houve uma rápida e violenta discussão em que a mulher foi acuada contra a parede, pálida; por fim o bêbado destroçou com um murro a modesta torta. Mãe e filha caíram no choro. O pequeno Edgar dirigiu o olhar sinistro ao pai e lhe deu um soco no estômago. Pareceu que o mundo tinha parado de girar.

  Louco de raiva, o homem agarrou uma faca em cima da mesa e foi para cima do garoto. A mãe se atirou em cima do pai para tentar impedir a tragédia, mas foi empurrada de volta, e não lhe restou nada a fazer se não abraçar a filha e tremer no chão. O pai brandiu a faca novamente e avançou para o filho, que o encarava de frente. Espalmou a mão do menino contra a parede. "Isso é para você aprender a ter respeito.".

  A força da facada foi suficiente para prender a mão à parede. Enquanto o sangue jorrava aos borbotões e escorria pelo chão, o bêbado saiu para a rua urrando. O rosto insensível do seu filho se sulcava de lágrimas envenenadas pelo ódio.

  O Edgar real sentiu que uma mão o agarrava e puxava para trás, viu a luz fria do corredor e caiu no chão, cego pelo mesmo ódio que sentira naquele dia. Quando pôde ver novamente, ergueu o rosto e confessou para Abgail:

  "Acho que fui eu quem o matou."

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