A próxima pela qual deveriam seguir era vizinha à que tinham acabado de sair. Era também preenchida por lembranças de um Edgar mais jovem. Entraram de mãos dadas, em um ato instintivo de conforto mútuo. Seus olhos falharam na luz colorida e vacilante e se desorientaram com o som estrondante.O Edgar da lembrança, que deveria ter 15 ou 16 anos, andava margeando as pessoas que dançavam no que parecia ser uma daquelas boates de periferia de aparência assustadora e com o ar constantemente cortado por gritos. Uma garrafa passou voando e o jovem Edgar protegeu o rosto com a mão esquerda; o barulho da quebra foi abafado pelo som alto e o garoto fez uma careta de dor, um caco enorme de vidro entrara na palma de sua mão. Enquanto ele se concentrava em tirar devagar o caco encharcado de sangue um homem se avultou a sua frente."Ora, vejam quem está por aqui." zombou.Edgar suspirou, lamentava que agora teria cicatrizes em ambas as mãos. Agradeceu aos céus por encontrar quem queria ver rapidamente, odiava boates."Mister B., que prazer em vê-lo!" sorriu sarcástico para o homem gigantesco, e armado, que o encarava. "Por acaso vossa senhoria, sua graça, saberia me informar onde se encontra o senhor Myles, ilustríssimo senhor meu pai?".O traficante ergueu as sobrancelhas e arreganhou os dentes. "Não tente me enrolar judeuzinho, ou lhe marco uma entrevista particular com Hitler no inferno.""Mas e o meu pai, cadê ele?""Não tenho ideia. Passou por aqui, pegou uns bagulhos e se mandou, sem sequer pagar." Aproximou o rosto do rosto do garoto. "Não pagou, saca? Avise a sua mãezinha que quero ver papeizinhos coloridos na minha mão em dois dias.""Ela não pode pagar. O pai pegou o dinheiro todo e sumiu, a gente achou que ele estivesse aqui com você."O traficante fez cara de pena, em seguida riu. "Mas não está, então ela que se foda e pague.""Você não entendeu? A grana tá com o pai! Vá atrás dele e pegue. Fica longe da minha mãe."Dito isso saiu, deixando atrás de si um rastro de pingos de sangue.Dois dias depois Simon Myles seria encontrado morto a tiros e com os bolsos vazios. No seu casaco estava pregado um bilhete: "Não há de quê".
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